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A tolerância religiosa numa sociedade de intolerantes

(Foto Ilustrativa)

Sou católico, mas tenho muitos amigos (as) que vivem experiências religiosas diferentes das que eu vivo: muçulmanos, budistas, afro-brasileiros, bahái´s, protestantes, etc. E, acredito, a diversidade da situação jamais se apresentou como problema para se afirmar o império do amor, da tolerância e da fraternidade. É possível afirmar que a multiplicidade é o melhor local para se praticar o diálogo. Aliás, o diálogo entre diferentes é muito mais frutífero do que o monólogo entre iguais. Se no primeiro há crescimento, no último, somente estagnação. É a partir do diálogo que abrimos nossos mundos para conhecer outros mundos – tão belos quanto os nossos. O diálogo nos ajuda a espantar o medo e ainda permite que reconheçamos uns aos outros como membros de uma mesma comunidade humana. Somos plurais! E é exatamente na pluralidade que se reforçam os traços de identidade de cada experiência religiosa. Na diversidade tecemos a teia da solidariedade que nos une numa grande fraternidade. Nesse sentido, reconhecer o pluralismo religioso e a necessidade do diálogo hiper-religioso não constitui de nenhuma forma uma patologia ou decadência confessional, mas um dado positivo da realidade. Pode-se dizer que cada expressão religiosa revela algo do mistério de Deus e nenhuma pode pretender possuir qualquer monopólio sobre a revelação.

 

A amizade que nutro em meio ao diálogo hiper-religioso é instrumento essencial para criar sentimento de respeito e tolerância na relação com o outro e em relação a outros mundos que pareciam tão diferentes, distantes e até mesmo (por absoluta falta de informação) esquisitos. Quando resolvi sair do meu próprio mundo religioso (uma redoma que reiteradamente colocamos ao redor de nós mesmos e que impede a aproximação para o diálogo) e me dirigir em direção a outros campos religiosos, qual não foi a minha surpresa ao contemplar o belo, a serenidade, a sabedoria, a espiritualidade e a salvação revestidas com outras roupagens diferentes daquelas com as quais meus olhos haviam se acostumado. Diante do novo me fiz novamente aprendiz ao me relacionar com novos irmãos e irmãs de outras convicções. Não os enxergava mais como inimigos ou concorrentes que precisam ser vencidos (ainda que o mercado de bens religiosos seja cada vez mais competitivo). E, por isso mesmo, não me vejo superior ou inferior aos que creem de uma maneira diferente da minha. Talvez tenhamos chegado num momento em que não precisemos mais hierarquizar os discursos como sendo verdadeiros ou falsos. Não há discursos religiosos falsos. Existem, sim, discursos religiosos que dão sentido e significado à ordem das coisas e à própria existência. Quando hierarquizamos os discursos, principalmente os religiosos, deixamo-nos seduzir pelo erro de dogmatizar o único em detrimento da variedade. Discursos únicos são discursos absolutos. Narrativas únicas são narrativas totalizantes e totalitárias. Quando atribuímos validade universal e cósmica a um único tipo de discurso vemos as outras pessoas e outros discursos como pessoas que pensam e vivem no erro. E, por isso, criticamos as demais pessoas e seus discursos construindo guetos religiosos. Minha identidade cristã se fortalece quando posso chamar meus amigos fraternalmente de irmãos e irmãs. Hoje, imagino meu corpo composto de vários altares onde os mais variados deuses se reúnem numa grande celebração para me tornar mais humano. Talvez seja essa a função dos deuses que abrigamos em nossos “corpos-altares”: fazer com que sejamos plenamente humanos quando respeitamos aqueles que são diferentes e, mesmo na diferença, nos assentamos para viver fraternal e solidariamente. A partir do momento em que nos atrevemos a caminhar na estrada do diálogo hiper-religioso injetaremos nesse diálogo certa dose de afetividade que nos moverá a nos referir àqueles de outras confissões religiosas não mais como estranhos mas, sim, como irmãos! Separados, criamos ilhas que nos impedem de agir eficazmente na construção de um outro mundo possível. Porém, juntos, temos condições de sonhar com um mundo inclusivo e onde caibam todos.



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