A cidade de Brumado, no Sudoeste baiano, foi palco de um episódio que reacendeu o debate sobre respeito, ética e igualdade de gênero na política local. A moradora Marina Trindade divulgou nesta terça-feira (15) uma carta pública endereçada ao vereador Vanderley Lima Dias, conhecido como “Boca”, após ser alvo de uma fala considerada machista durante a sessão ordinária da Câmara Municipal realizada no dia anterior. Segundo o relato da cidadã, a situação teve início a partir de um comentário feito por ela em um grupo de WhatsApp, onde, de forma respeitosa, expressou a opinião de que o vereador, por estar em seu segundo mandato, poderia estar chegando ao fim de seu ciclo político e retornar à sua função de agente de saúde. Contudo, na sessão desta segunda-feira (14), o vereador usou a tribuna da Casa Legislativa para, segundo Marina, desferir ataques pessoais e preconceituosos, com insinuações de cunho machista. “Sugeriu que eu deveria procurar uma trouxa de roupa para lavar”, escreveu ela em sua manifestação pública. Na carta, Marina reforça que a crítica feita anteriormente não foi ofensiva, nem partiu para o campo pessoal. Em contrapartida, aponta que a fala do parlamentar foi desrespeitosa e incompatível com a conduta esperada de um representante público. “Lamentavelmente, sua reação demonstra despreparo emocional e uma confusão perigosa entre o poder que lhe foi concedido pelo voto e a vaidade pessoal”, afirma. A publicação repercutiu nas redes sociais e já mobiliza entidades ligadas à defesa dos direitos das mulheres e à ética na política. Nas ruas e em grupos da cidade, o assunto passou a ser comentado amplamente. Diversos moradores expressaram solidariedade à autora da carta e cobraram posicionamento da Câmara de Vereadores. A fala atribuída ao vereador, segundo especialistas, se enquadra como violência simbólica e política de gênero, conforme previsto na Lei nº 14.192/2021, que estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. Até o momento, nenhuma nota oficial foi divulgada pela presidência da Câmara de Brumado sobre o caso. Não há informações se será instaurado um processo de apuração ou se o vereador responderá formalmente pelo ocorrido. A expectativa de movimentos sociais é de que a Casa Legislativa adote providências diante da gravidade da denúncia. Diversas lideranças locais já articulam uma manifestação em frente à Câmara na próxima sessão, marcada para quinta-feira (17), com o objetivo de pedir retratação pública e maior rigor em relação a comportamentos misóginos dentro do Legislativo. Leia a Carta Aberta abaixo:
Brumado: Moradora denuncia fala machista de vereador 'Boca' e expõe caso em carta pública
Foto: Reprodução l CMB CARTA PÚBLICA AO VEREADOR VANDERLEY BOCA
Brumado, 15 de julho de 2025
Venho a público manifestar minha indignação diante de um episódio lamentável ocorrido na sessão do dia 14 de julho de 2025 na Câmara de Vereadores de Brumado, protagonizado pelo vereador Wanderley Boca, conhecido politicamente como “Boca”.
Tudo teve início com um comentário que fiz em um grupo de WhatsApp, no qual apenas opinei que, por estar em seu segundo mandato, talvez este fosse o seu último ciclo político. Acrescentei ainda que, por ter formação e qualificação profissional, ele poderia retornar ao seu cargo de origem como agente de saúde. Trata-se de uma opinião pessoal, expressa em ambiente privado, sem ofensas, sem ataques, sem desrespeito.
No entanto, de forma desproporcional e lamentável, o vereador decidiu me atacar publicamente usando a tribuna da Câmara — espaço que deveria ser destinado ao debate sério e responsável — para me ridicularizar diante de toda a cidade, com insinuações ofensivas e machistas, sugerindo que eu deveria “procurar uma trouxa de roupa para lavar”. Um comentário carregado de preconceito e totalmente inadequado para alguém que ocupa um cargo público.
Senhor vereador, o senhor é uma figura pública. Isso significa que críticas fazem parte da função que o senhor exerce e devem ser encaradas com equilíbrio e maturidade. A população tem o direito — e o dever — de fiscalizar, opinar e participar da vida política da cidade. Lamentavelmente, sua reação demonstra despreparo emocional e uma confusão perigosa entre o poder que lhe foi concedido pelo voto e a vaidade pessoal.
Sou mãe, trabalhadora, dona de casa, cidadã ativa e conhecida na cidade por contribuir de forma honesta com a comunidade, mesmo sem ocupar cargo público. Diferente do senhor, que tem o dever constitucional de representar o povo, jamais usei espaço público para atacar ou diminuir alguém.
Brumado precisa de vereadores atentos às demandas reais da população: saúde, educação, segurança, infraestrutura, geração de emprego. Gastar tempo e energia reagindo a comentários de grupo de WhatsApp, ainda mais com ataques pessoais, não faz parte das atribuições de um representante do povo. Isso, vereador, é um desvio do que realmente importa.
A sua fala não me envergonha. Pelo contrário: revela, infelizmente, o quanto ainda precisamos avançar em respeito, ética e maturidade no ambiente político. O que o senhor fez mancha a cadeira que ocupa e enfraquece a imagem do legislativo municipal.
Respeito se conquista com atitudes — não com microfone.
E por fim, ao contrário do seu slogan, vereador, Brumado fala, sim — fala com coragem, fala com consciência e fala mesmo sem Boca.
Marina Trindade






















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