Desvio da ferrovia divide opiniões em Brumado: proposta da Prefeitura ignora valor histórico e simbólico da linha férrea

Foto: Reprodução l Movimento Trem de Passageiros l Estação de Brumado 1970

A decisão da Prefeitura de Brumado, no sudoeste da Bahia, de solicitar à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e à estatal Infra S.A. pareceres técnicos para o desvio do traçado ferroviário que corta a área urbana do município tem gerado críticas e levantado um debate sobre o futuro da cidade e a preservação de sua história. Nos ofícios enviados em 16 de junho, o prefeito Fabrício Abrantes (Avante) defende que o novo traçado da ferrovia acompanhe a BR-030, margeando o perímetro urbano e liberando o centro da cidade para novos investimentos e melhorias na mobilidade. O gestor justifica a medida como uma forma de “mitigar os impactos urbanos, ambientais e sociais” causados pelo tráfego de trens de carga, sobretudo de minério, em áreas residenciais e comerciais. Embora a proposta dialogue com um discurso de modernização e desenvolvimento urbano, especialistas e parte da população enxergam na decisão um possível apagamento de um patrimônio que ajudou a construir a identidade de Brumado. A linha férrea de passageiros operou entre as décadas de 1950 e 1980, conectando Brumado a cidades como Monte Azul (MG) e diversas localidades da Bahia e de Minas. Mais do que um meio de transporte, a ferrovia simbolizou integração, progresso e mobilidade, impulsionando o comércio, a chegada de novos moradores e o fortalecimento econômico do município no período. 

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A Estação Ferroviária de Brumado, inaugurada em 1947, foi por décadas um ponto de encontro e referência para o cotidiano local. Com o fim das viagens de passageiros e a intensificação do transporte de cargas, o espaço foi perdendo protagonismo, mas ainda mantém forte valor afetivo e histórico para a cidade. Para muitos brumadenses, desviar a ferrovia do centro é mais do que uma mudança técnica: é uma decisão simbólica que pode afastar ainda mais o município de suas raízes. Historiadores locais apontam que, em vez de retirar o traçado urbano, o poder público poderia investir na revitalização da área ferroviária, transformando-a em espaço cultural, turístico e de memória — a exemplo de projetos semelhantes realizados em cidades como Feira de Santana e Juiz de Fora. A proposta da Prefeitura, que ainda depende de parecer técnico da ANTT e da Infra S.A., não possui cronograma nem estimativa de custos, e está sob análise da Casa Civil e do Ministério dos Transportes. Enquanto o governo municipal fala em “mobilidade sustentável”, críticos afirmam que o plano revela uma visão desenvolvimentista que desconsidera o valor histórico e afetivo da ferrovia, reduzindo-a a um obstáculo ao progresso. O debate sobre o destino dos trilhos em Brumado, portanto, ultrapassa a engenharia e o urbanismo: é uma discussão sobre memória, identidade e o direito da cidade de preservar os marcos que a ajudaram a crescer.